Amor que não abandona
A correção cristã não nasce do desejo de condenar. Ela nasce do cuidado que busca reconciliação, arrependimento e restauração.
A disciplina na igreja costuma ser mal compreendida. Afinal, nossa cultura frequentemente define o amor como aceitação irrestrita e ausência de confrontação.
Segundo essa perspectiva, corrigir alguém demonstraria falta de amor. Entretanto, a Escritura ensina exatamente o contrário: o amor verdadeiro não permanece indiferente quando vê um irmão afastando-se do Senhor ou vivendo no pecado.
Portanto, a disciplina cristã não tem como objetivo humilhar, expor ou simplesmente punir. Seu propósito é restaurar o pecador, preservar a comunhão e refletir o coração cuidadoso de Cristo.
Uma comunidade reconciliada e reconciliadora
A igreja de Cristo foi chamada para ser uma comunidade reconciliada. Deus nos aproximou de si por meio da morte e da ressurreição de Jesus Cristo.
Contudo, a reconciliação que recebemos não termina em nós. Como resultado, também somos chamados a ajudar uns aos outros a permanecer em comunhão com Deus e com os irmãos.
Esse cuidado mútuo é essencial para a saúde da igreja. Além disso, ele fortalece nosso testemunho diante de uma sociedade que conhece pouco sobre graça, arrependimento e perdão.
A igreja reconciliada pelo evangelho também trabalha pela restauração daqueles que se afastam.
O fundamento da disciplina está no evangelho
A disciplina na igreja não começa com superioridade moral. Pelo contrário, ela começa com a lembrança de que todos nós dependemos da misericórdia de Deus.
Por causa dos nossos pecados, éramos inimigos do Senhor. No entanto, Cristo recebeu em nosso lugar a condenação que merecíamos e nos reconciliou com Deus.
“Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida.” Romanos 5.10
Além disso, o Espírito Santo transformou nosso coração. Desse modo, o mesmo amor que recebemos de Cristo deve orientar nossos relacionamentos dentro da igreja.
Portanto, a correção cristã não nasce da ira nem do desejo de condenar. Ela nasce da graça que recebemos e desejamos ver operando na vida do irmão.
Amor e repreensão caminham juntos
No Antigo Testamento, Deus já ensinava que o amor ao próximo inclui a responsabilidade de advertir.
“Não aborrecerás teu irmão no teu coração; repreenderás o teu próximo […]; amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Levítico 19.17–18
Assim, deixar de advertir um irmão que caminha em direção ao pecado não representa necessariamente bondade. Em algumas situações, esse silêncio se transforma em negligência.
Provérbios também mostra que as palavras de um amigo fiel podem causar desconforto momentâneo. Entretanto, como o tratamento de um médico, elas visam produzir cura.
“Melhor é a repreensão franca do que o amor encoberto. Leais são as feridas feitas pelo que ama.” Provérbios 27.5–6
Condenação
A disciplina não trata o irmão como alguém sem esperança ou distante da possibilidade de restauração.
Humilhação
A correção bíblica não expõe o pecador para satisfazer curiosidade, orgulho ou desejo de vingança.
Cuidado
A igreja confronta porque deseja ver arrependimento, perdão e renovação da comunhão.
Jesus busca a ovelha que se desviou
O próprio Senhor Jesus ilustrou esse cuidado na parábola da ovelha perdida. O bom pastor não abandona aquela que se afastou.
Logo depois, Cristo apresenta os passos da disciplina eclesiástica em Mateus 18.15–20. Essa sequência mostra que a disciplina nasce de um coração pastoral.
“Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão.” Mateus 18.15
A expressão “ganhaste a teu irmão” revela claramente o propósito. O objetivo não é vencer uma discussão, mas recuperar uma pessoa.
Paulo reforça esse princípio ao ordenar que a correção aconteça com espírito de brandura. Consequentemente, não há espaço para arrogância, agressividade ou prazer na queda do outro.
“Se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura.” Gálatas 6.1
O caminho bíblico da restauração
Muitas vezes, pensamos que amar significa evitar conflitos. Contudo, o silêncio pode ser cruel quando alguém caminha em direção à destruição espiritual.
Por isso, a igreja precisa agir com verdade e graça. O processo deve ser cuidadoso, progressivo e orientado pelas Escrituras.
Aproxime-se pessoalmente
O primeiro passo não é divulgar o problema, mas conversar com o irmão de forma reservada, respeitosa e amorosa.
Fale com verdade e mansidão
A correção deve apresentar claramente o problema, porém sem agressividade, acusações desnecessárias ou sentimento de superioridade.
Busque o arrependimento
O objetivo é conduzir o irmão ao reconhecimento do pecado, à confiança no perdão de Cristo e à mudança de direção.
Caminhe ao lado dele
A restauração não termina em uma conversa. A igreja deve oferecer oração, discipulado, acompanhamento e comunhão.
O que a disciplina bíblica procura preservar?
Quando a igreja exerce a disciplina segundo a Palavra de Deus, ela deixa de funcionar como simples instrumento de punição. Em vez disso, torna-se um precioso meio de graça.
O pecador
A igreja deseja que o irmão abandone o pecado, experimente o perdão e retorne à comunhão.
A comunidade
A correção protege a unidade, a saúde espiritual e a pureza da igreja local.
A glória de Cristo
Uma igreja fiel demonstra que leva a sério a santidade e o senhorio do seu Salvador.
O amor de Cristo nos ensina a cuidar
O amor cristão não abandona, não humilha e não permanece indiferente.
Como igreja, somos chamados a cuidar uns dos outros com humildade, graça, verdade e firmeza.
Assim como Jesus veio buscar e salvar o que se havia perdido, também devemos trabalhar pela restauração daqueles que se afastam do Senhor.
Portanto, quando exercida segundo as Escrituras, a disciplina na igreja preserva o pecador, protege a comunidade e glorifica o nome de Cristo.
No amor de Cristo,
Pr. Valdeci Santos

Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.